"Se com Cristo nós morremos com Cristo viveremos" (Rm 6, 8)
(...) Nos Finados, lembramos e agradecemos a Deus a vida de nossos ascendentes, aqueles que nos antecederam (pais, avós, parentes e amigos). Paramos um minuto. Acendemos uma vela. Proferimos uma oração. Vamos à missa nos cemitérios ou comunidades. Agradecemos a Deus essa cadeia da vida que nos tornou possíveis e viventes. Não somos filhos do nada, nem começamos em nós mesmos. Os filhos do nada são sementes de caos. Somos sementes do Cosmos, do amor de Deus, transmitido por avós, pais e antepassados. Essa cadeia de gerações nos transmitiu vida e fé, como expressão da tradição católica, a transmissão pela Igreja das verdades da fé.
A luz, que nos iluminou através de pais, avós, parentes ou amigos, não se apagou com suas mortes. Acendemos velas para lembrar que essa luz segue nos iluminando, em nossos corações. Veneramos seus exemplos e imitamos sua fé (Hb 13,7).
Enfeitamos as sepulturas com flores, símbolo da ressurreição. Nossos mortos são plantados como sementes, regadas com nossas lágrimas, e florescem ressuscitados no jardim do Senhor.
Cada um de nós recebe de Deus dons especiais, como sementes do Reino. Durante a vida devemos cultivar esses dons, deixá-los florescer e perfumar os irmãos e irmãs. A Igreja católica é o jardim perfumado do Senhor. Ela não condena, mas ama e acolhe. Quem busca caminhar com Jesus na vida, estará com Ele na morte e eternidade. Nossa morte não é um fim. É nossa páscoa, nossa passagem para a casa do Pai.
Nada pode nos separar do amor de Cristo. Os mortos e os vivos participam da comunhão dos santos. Quem morre sai deste mundo, destas dimensões e entra na eternidade. Na eternidade não existe tempo, nem espaço. Deus vê sempre como presente nossa oração, passada ou futura. Por isso ainda oramos pela conversão do outro malfeitor ao lado de Jesus e por nossos entes queridos falecidos que morreram na esperança da ressurreição.
Nos Finados nós não rezamos aos mortos mas pelos mortos. Os mortos não saíram da economia eclesial e participam da comunhão dos santos.
Na morte a vida não é tirada mas transformada. Nossa vida é eterna.
(Prof. Dr. Evaristo Eduardo de Miranda,
escritor, doutor em ecologia,
ministro das Exéquias da Arquidiocese de Campinas)
No evangelho, o relato da cura do cego, colocado no fim
da caminhada de Jesus a Jerusalém, ressalta que os discípulos precisam de luz
para seguir o Mestre no caminho da paixão. O mendigo cego, Bartimeu,
encontra-se sentado à beira do caminho. Ao ouvir que Jesus estava passando,
clama com todas as forças: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim (v.47).
Jesus se detém e manda chamá-lo, revelando-se como o Messias enviado para
manifestar o amor misericordioso de Deus. Ao perceber o chamado, o cego joga o
manto, provavelmente o pano que estendia para receber esmolas, e se aproxima de
Cristo. Diante da pergunta de Jesus “que queres que te faça?” responde com uma
profissão de fé: Rabbuni, que eu veja! A expressão de Jesus: Tua fé te salvou
(v.52) é a mesma que ocorre no relato da cura da mulher em 5,34. Assim, a cura
tem sentido de salvação. O cego recupera a vista e segue Jesus pelo caminho,
tornando-se verdadeiro discípulo.
Na 1ª leitura, Deus reúne as tribos dispersas e as
consola com a alegria da salvação. A cura de cegos e coxos sinaliza a chegada
da salvação messiânica em Cristo, revelando o amor predileto de Deus pelas
pessoas marginalizadas. O salmo celebra as maravilhas do Senhor, na esperança
de ver a restauração plena da vida. A 2ª leitura ressalta que Jesus é sacerdote
para sempre, segundo a ordem de Melquisedec, servidor do Deus Altíssimo (cf. Gn
14,18-20). Participando da condição humana, Cristo a santifica com a oferta
única e total de sua vida.
O cego Bartimeu representa os que são iluminados pelo
Cristo e se comprometem a seguir seu projeto de vida nova. Que possamos superar
os obstáculos, deixar o manto, para ir ao encontro do Salvador e descobrir os
sinais de sua presença ao longo do caminho.
(Extraído da Revista de Liturgia)
Para refletir e partilhar:
01. Qual parte deste Evangelho você mais gostou? Por quê?
02. Ao contrário do homem rico (Mc 10, 17-30), Bartimeu deixa seu manto (talvez o único bem material que tinha) e segue Jesus pelo caminho. Que tipo de renúncia você fez para se tornar discípulo/a de Jesus Cristo? E que mais lhe falta?
03. De que tipo de cegueira nós precisamos ser curados/as? Como podemos obter esta cura?
Oração
Deus eterno e todo-poderoso,
aumentai em nós a fé,
a esperança e a caridade e
dai-nos amar o que ordenais
Jesus, com seus discípulos, encontra-se em caminhada para
Jerusalém. Essa viagem tem, sobretudo, uma finalidade pedagógica. O episódio
do homem rico vem proporcionar uma oportunidade especial para Jesus esclarecer
qual a relação que seus seguidores devem ter com os bens materiais. O homem
rico é representativo de todos os que se consideravam justos por cumprir a lei
de Deus, conforme as orientações do sistema religioso oficial. A mentalidade
dominante via na riqueza o sinal concreto de bênção divina (teologia da
retribuição). Aquele homem estava convencido disso e dirige-se a Jesus cheio
de confiança em seus próprios méritos. Ele corre e ajoelha-se diante de
Jesus. Demonstra que estava ansioso por encontrar-se com o “bom Mestre” para ser
confirmado em sua mentalidade e em suas atitudes. Jesus, porém, o desarma já
de início (talvez por perceber uma intenção de bajula- ção): “Ninguém é
bom a não ser Deus”.
O homem manifesta preocupação com a conquista da vida
eterna. Considera-se uma pessoa justa, um judeu perfeito e, portanto, em seu íntimo
espera que Jesus lhe diga que está no rumo certo. De fato, no primeiro
momento, Jesus o interpela sobre o caminho indicado pelos mandamentos. Porém,
cita somente aqueles que se referem à relação com o próximo, acrescentando
“não defraudes ninguém”. É uma indicação de que os muitos bens que o homem
possuía eram resultado da defraudação dos bens devidos aos outros. Cai por
terra a concepção teológica de que o acúmulo seria sinal de bênção
divina. Estaria o homem disposto a entrar na dinâmica da teologia do Reino de
Deus?
Jesus lhe demonstra muito amor mostrando-lhe como poderia
ser verdadeiramente livre, sábio e justo: “Vai, vende o que tens, dá aos
pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Como se vê,
enquanto o homem está preocupado com a vida eterna para si mesmo, Jesus
preocupa-se com os seres humanos que neste mundo não possuem o necessário
para viver. A vida eterna está garantida para quem segue a Jesus na prática
do amor com as pessoas necessitadas. É no serviço abnegado ao próximo que
encontramos a plena realização já neste mundo. Assim contribuímos na construção
de uma sociedade nova – o Reino de Deus –, que se fundamenta nas relações de
justiça e de fraternidade. Para isso, precisamos vencer o grande empecilho que
é o apego aos bens materiais. Aquele homem rico não conseguiu dar o passo de
aceitar o convite de Jesus, tornar-se seu discípulo e ter um tesouro no céu.
Decepcionado com o desfecho do diálogo com Jesus, foi-se embora entristecido,
“pois era possuidor de muitos bens”. Apesar de ser cumpridor das leis
religiosas oficiais, demonstrou que seu deus era o dinheiro.
Jesus continua a aprofundar a reflexão com seus
discípulos: “Como é difícil a quem tem ri- quezas entrar no Reino de Deus...
É mais fácil um camelo entrar pelo fundo da agulha...”. O contraste evidente
entre o camelo e o buraco de uma agulha mostra a impossibilidade de um rico de
renunciar às seguranças e ao poder que a riqueza lhe dá para promover a
justiça social. O espanto dos discípulos revela que também eles ainda estão
imersos na mesma lógica do homem rico: “Então, quem pode ser salvo?”. A
resposta que Jesus lhes dá ressalta que a graça de Deus pode proporcionar a
conversão também para os ricos, “pois para Deus tudo é possível”.
Aos discípulos que deixam tudo para segui-lo, Jesus lhes
garante que usufruirão dos benefícios do Reino de Deus, isto é, da sociedade
justa e fraterna. Nela não haverá discriminação nem miséria e, sim,
acolhida, afeto, partilha e vida em abundância para todos e, “no mundo futuro,
a vida eterna”. É uma proposta construída pelos que se fazem últimos e
servos de todos e contradiz (por isso atrai perseguição) a dos primeiros (ricos
e poderosos). Todos estão convidados por Jesus a desvencilhar-se da
escravidão do dinheiro para tornarem-se agentes de um novo mundo. Esse é o
jeito sábio de viver.
O caminho do discipulado requer o desprendimento para
colocar a vida e os bens a serviço do Reino. Conduzidos pelo olhar amoroso de
Jesus, possamos viver a confiança total no Pai, na comunhão e partilha com os
irmãos necessitados.
(Extraído da Revista: Vida Pastoral)
Para refletir e partilhar
1. Como é a minha relação com os bens materiais? Vivo a partilha ou o acúmulo?
2. Por que a riqueza é um obstáculo para entrar no Reino de Deus?
3. O que fazer concretamente para cuidar dos bens da criação e promover um mundo mais justo e fraterno?